IF

Você está tomando conta da sua própria vida, ouvindo música, curtindo o sol. Tem uma mulher do seu lado, talvez 25 anos; pele pálida, cabelos compridos e castanhos e óculos. Você não presta muita atenção nela, até ouvir sua voz…

 Eu não te conheço e eu provavelmente não deveria estar te contanto isso. Se nós vivessemos num livro em quadrinhos, alguém me falaria sobre colocar minha identidade secreta em perigo ou algo assim. Mas eu não me importo. Eu preciso falar com alguém.

Você está surpresa, e vira em direção a ela. Ela está olhando pra você, mas não esta falando nada. Você leva um tempo para perceber que a voz está vindo do seu fone de ouvido. Como ela está fazendo isso? Ela não está segurando nada, sem celular, nem nada. Você instintivamente inclina na direção contrária.

Não se assuste! Eu sei que você nao me reconhece. Você já ouviu falar da IF? Essa sou eu.

Você ouviu falar da IF. Os noticiários chamaram ela de superheroína depois que ela fez...alguma coisa…no hospital da cidade. Você perdeu essa parte da história, mas aparentemente salvou vidas.

É difícil - não ter com quem conversar. Pelo menos, não aqui. Eu sei, você vai zombar da minha cara. “Coitada da superheroína, sozinha com seu super poderes.” Deixa eu mudar seu ponto de vista.

Meu coração ainda está batendo. Mas algo me impede de decolar.

Eu nasci e cresci na ilha de Sambath. Eu sei que você nunca ouviu falar dela. Esse é o ponto. Poucas pessoas acham essa ilha, e as poucas vezes que eles acham - bom, vamos dizer que nunca termina bem.

O que você chamaria de um super poder aqui, em Sambath, é apenas normal. Todos tem um poder, um dom. Meu irmão pode controlar raios. Minha mãe sabe dizer a verdade a partir da mentira. Meu pai pode dizer como qualquer coisa mecânica funciona com apenas um toque.

A mulher olha pra baixo triste, está um silêncio por um momento.

E então, lá estava eu. A primeira pessoa nascida na ilha de Sambath sem um dom. Eles normalmente aparecem na puberdade. Mas aos 18 anos, eu não tinha nenhum sinal dele.


Ela arrumou seus ocúlos. Ela ainda parece uma garota normal pra você. Bonita, olhos inteligentes, cabelos bonitos. Mas - uma superheroína? IF?
Então eu deixei minha casa na ilha e me mudei pra cá. Consegui um emprego e me matriculei na universidade local. Foi muito interessante, e divertido, mas eu ainda sentia que eu estava esperando que algo acontecesse.

Eu nunca me vi como uma pessoa que gostasse de computador. Eles não são muito úteis em Sambath. Muitos dons os fazem obsoletos. Ou inúteis. Meu irmão os causam curto circuito. Mas eles fazem a vida mais fácil na universidade.

Eu estava surpresa ao descobrir como as coisas são fáceis. Eu sempre podia encontrar as informações corretas, nunca tive nenhum problema que meu amigos tinham. Nunca tive uma tarefa perdida ou corrompida. Eu nunca perdi emails importantes ou recebia milhares de spams.

E ainda, nunca passou pela minha cabeça que eu tinha um dom no final das contas…

IF olha para o lado por um momento.

Não até um amiga pedir para que eu olhasse seu computador que estava com vírus. Eu estava surpresa que ela estava com esse problema, porque funcionava normalmente pra mim, então eu devolvi para ela com um pedido de desculpas. Uma semana depois, ela me agradeceu - desde que eu mexi, não só o vírus tinha sumido, como estava funcionando melhor que antes.

A história se espalhou. Outra pessoa me pediu para olhar seu mp3 player, depois um computador desktop. Eu ainda não sabia como eu estava fazendo - sinceramente.

E então, por acidente, eu fui aprensentada a robôs. A aula de programação foi a única que encaixava no meu horário.

Eu não tinha nenhuma noção, mas - eu só tinha que pensar no que eu queria que o robô fizesse, e o código apareceria mais rápido do que eu podia digitar. Ainda mais maravilhoso, os robôs fariam o que eu quisesse, mesmo sem o código.

Eu quase tive um ataque do coração quando eu percebi o que estava acontecendo - eu encontrei meu dom! Eu comecei a explorar, testando tudo o que podia fazer.

Você só percebe que você esta encarando IF quando ela para de… falar? Há uma palavra pra isso? Ela ainda nao tinha falado nada em voz alta. Ela só está olhando para o chão, parecendo triste. Você está imaginando se vc deveria falar alguma coisa, ou talvez sair, quando a voz na sua cabeça começa de novo.

 Um dia, eu tive uma visita. Uma velha amiga, Elsa. Bom, não bem uma amiga. Nós crescemos juntas na ilha, nós estudamos juntas e tudo isso.
Eu deveria ter pensado melhor antes de confiar nela. Mas é difícil: ela tem o dom de persuasão. E é mais eficaz nos que não tem um dom do que nos que tem, mas ainda assim pode ter um grande impacto em nós se não estivermos preparados.

Ela olha para você e sorri com tristeza.

E parecia tão natural se unir, duas estrangeiras de Sambath. Quando eu disse pra ela que eu encontrei o meu dom, ela ficou encantada - me parabenizou por isso.

Então eu nem lembrava mais disso, até que alguns dias depois ela me disse que uma amiga a devia dinehiro, e quando percebi eu estava acessando a conta dela e fazendo a transferência.

Sim, eu era uma idiota. Mas como eu disse, Elsa pode ser muito persuasiva quando ela quer.

Não uma completa idiota. Assim que o efeito começou a desaparecer e eu percebi o que ela estava pretendendo - e que ela me fez uma cúmplice involuntária. Roubando dinheiro, roubando identidades...Eu a denunciei a polícia assim que percebi o que estavamos fazendo. Anônimamente, claro.

Ela foi presa, mas foi liberada em um dia. Eu não ouvi mais falar dela desde aquele dia, espero que ela tenha voltado para Sambath.

IF suspira.

Eu me senti mal, sabia? Eu nunca usaria meu dom desse jeito sozinha. Você pode dizer, talvez que não tenha sido minha culpa, mas eu devia ter reconhecido os sinais mais cedo.

Eu devolvi todo o dinheiro, arrumei os danos nos relatórios de crédito, fiz tudo o que podia para as pessoas que nós - Elsa - tinha enganado.

Mas eu sentia que precisava fazer algo mais.

Eu estava sentada no ônibus, passando pelo hospital, quando eu tive uma idéia. Imagina o que eu poderia fazer para todo o equipamento técnico do hospital, com apenas o pensamento.

Ela sorriu, seus olhos brilharam.

Um sinal com a mão e um sorriso; e computadores aceleraram, as redes foram arrumadas, vírus foram limpos e dados recuperados. 

Tudo estava funcionando melhor do que nunca. Acompanhamento de pacientes, receitas médicas, folhas de pagamento e muito mais. Eu até recalibrei algumas das máquinas grandes antes de ir embora - mas eles não vão saber até eles perceberem que a taxa de erro caiu espetacularmente.

Estou bastante satisfeita comigo mesmo. Foi um dos meus melhores trabalhos - até agora.

Eu menti um pouco antes. Eu sei quem você é.

Eu gostaria de me desculpar. Sua conta foi uma das contas que Elsa e eu tiramos dinheiro. Mas já foi devolvido e com juros.

Ela fala em voz alta agora. Sua voz é a mesmo que você escuta pelo seu fone de ouvido.

“Eu não espero seu perdão. Eu só achei que você deveria saber. E eu gostaria de fazer as pazes com você. Eu poderia te ensinar a fazer o que eu faço. Bom, não exatamente o que eu faço - isso é um dom. Mas como usar um computador e como programar ele.”

Ela está olhando para você com expectativa, as mãos dela ainda estão nas suas. Se ela nunca tivesse falado com você, você nunca saberia que ela te prejudicou. Ela teria permanecido como uma estranha, uma história lembrada pela metade.

A escolha é sua - o que você vai fazer?