Morphear

A fila de fãs se prologava até a esquina. As meninas estavam com a camiseta estampadas com os rostos do seus ídolos segurando o ingresso para o show. O único show na Austrália estava esgotado e ninguém queria esperar por mais alguns anos para ter a chance de ver a banda ao vivo.

“Falton DOIS minutos!” Sally gritou animada. Ela e Tess esperaram três longos anos para que o tour Banda finalmente passasse pela Austrália. Enquanto as fãs gritaram cada vez mais alto, ninguém notou uma estranha sombra se movendo nas sacadas acima da multidão.

O barulho não penetrava no fone de ouvido da pessoa que estava sentada perto da gente. Morphear estava tão concentrada no algorítimo que estava desenvolvendo para melhorar sua proteção contra o som. Ela digitava o código no seu laptop quase no mesmo ritmo da música - sua música favorita da Terra. Sua roupa e seu fone de ouvido brilharam num azul sereno para combinar com seu estado de espírito pensativo. Ela não tinha certeza do que ia acontecer hoje a noite: seriam eles ou não? Um show de heavy metal na maior arena da cidade seria o momento perfeito para um ataque de Loud...

As vezes Morphear sentia dores de culpa, sabendo que seu planeta e seus habitantes trouxeram o Loud involuntáriamente para a Terra. Mas ela precisava achar um jeito de salvar seu mundo dessa corrida de saqueadores… As pessoas em Quiescent, e todos os outros seres inteligentes nos seus setores da galáxia, desenvolveram sensibilidade ao ruído ao longo dos milênios. Isso lhes permitiu desfrutar as nuances do som, na natureza, numa música e numa conversa. Eles estão totalmente despreparados para a feroz chegada de Loud ou da sua capacidade de transmitir um barulho ensurdecedor. Vários planetas já haviam sido considerados perdidos, seus habitantes totalmente surdo e indefesos contra os invasores impiedosos.

Várias missões foram enviadas em várias direções para encontrar um tipo de santuário para os Louds ou descobrir uma arma para lutar contra eles. A embarcação de Morphear encontrou a Terra - um planeta habitado por seres inteligentes, que eram não só criativos mas aparentemente não eram tão sensíveis ao barulho, que é o mais importante.

Então falaram para Morphear ficar na Terra e descobrir o que ela pudesse. Ela poderia facilmente se passar por humana e passar alguns meses em contato com grupos de pesquisas. Ela aprendeu tudo o que ela podia sobre como os humanos ouviam e filtravam barulho. Ela estudou tecnologias de transmissão e aparelhos auditivos. Ela olhou para as estatísticas sobre o aumento do ruído ambiental.

Protegida pelos seus fones de ouvido ela andou por shoppings e foi a vários shows barulhentos, imaginando como humanos aguentavam aquele nível de barulho. Ela rapidamente descobriu que várias pessoas estavam preocupadas com o aumento do barulho a  sua volta. E então ela percebeu que o Loud atingiu a Terra antes dela.

Ela achou uma vaga num laboratório aonde eles estavam desenvolvendo uma proteção contra níveis de barulhos muito altos. O Professor Bree estava agradecido pelo silêncio e o seu sério assistente que trabalhou duro e alcançou resultados rápidos.

Morphear desligou seus fones de ouvido e fez uma careta. Até mesmo o preenchimento grosso permitiu que muito barulho entrasse. Ela os ligou novamente e checou suas medições. O barulho da multidão era tolerável, mas o show ainda não tinha começado. Os Louds estavam aqui? Ela foi pra frente da cabine e olhou ao redor da arena. Ela nunca tinha visto os Louds tão perto, somente suas formas a distância.

Morphear só esperava que sua intuição estivesse certa. Estranhas atividades próximas a levaram a acreditar que os Louds fariam alguma coisa esta noite, aqui, nessa arena. Essa era a sua chance de testar sua proteção contra barulho. Ela checou o longo tubo prata mais uma vez para ter certeza que estava carregado.

O primeiro acorde de guitarra ecoou no ar. Sally rapidamente se perdeu na música, rindo e dançando ao ritmo da música. Sua amiga Tess segurou seu braço. “Isso é mais que demaaaaaaaaaaaiss…” gritou Tess. Sally só conseguia sorrir de volta. Ela mal conseguia ouvir sua amiga de tão alto que estava o barulho de mil fãns cantando junto com a banda. A atmosfera estava elétrica.

Momentos depois, a música ia aumentando conforme chegava perto do refrão da música mais famosa e os fãns cantavam cada vez mais alto… mas Sally de repente se sentiu inquieta enquanto a música ficava mais alta e começou a mudar...

O fone de ouvido de Morphear de repente ficou vermelho brilhante. Ela fechou seu laptop, se levantou e abriu a porta. Conforme ela descia a arquibancada sua roupa também ficou vermelho. Era isso, ela pensou, seu sangue pulsava. Nenhuma tecnologia na Terra poderia alcançar esse nível de barulho.

Sally colocou os dedos no ouvido. As pessoas ao redor estavam meio tontas, todos estavam de mãos dadas. Ela olhou para o palco. A banda ficou paralizada e surpresa. Os guardas entraram no palco e puxaram os cabos do amplificador, mas a música continuou - um estranho e estridente barulho como se todas as músicas estivessem sendo tocadas ao mesmo tempo.

Morphear abriu caminho através da multidão e apontou sua arma. O cano de prata tremeu quando ela disparou o mais forte deflector de barulho. O barulho diminuiu um pouco, mas ao se afastar para carregar a arma para disparar mais uma vez ela foi arremessada ao chão por uma onda de ruído. Várias pessoas ao redor gritaram e alguém tirou seu fone de ouvido.
A dor é quase insuportável, mas ela cambaleou para se levantar e apontou sua arma. Antes que ela pudesse atirar de novo uma figura sombria a tirou do meio da multidão e a derrubou.

Rastejando pelo chão procurando seu fone de ouvido - sua única defesa - sua mão tocou um cabo fino perto do seu pé. O fone de ouvido de teste que estava no seu bolso deve ter caído!
O laboratório de pesquisa estava desenvolvendo um fone de ouvido pequeno que bloqueiam  barulhos mais leves  e é menos notável do que o fone de ouvido grande. Mophear enrolou o fio em torno dos pés da figura sombria que ao tropeçar soltou um grito terrivelmente agudo.

Morphear atirou contra a figura sombria para criar um escudo contra o barulho. Ela foi se virando enquanto recarregava a arma e então atirou outro escudo contra a arena. Iria funcionar com uma multidão deste tamanho?

Sally encontrou Tess e então elas tentaram abrir caminho no meio da multidão, suas cabeças lutavam contra o barulho. Então, num instante, um estranho silêncio cercou a arena. Depois de um barulho insuportável, um silêncio repentino foi um choque. Pessoas circulavam em confusão olhando umas para as outras. Alguns se olhavam como se estivesse gritando, mas suas vozes saiam como sussuros.

Ela olhou pra cima e viu uma figura azul e alta na entrada principal da arena. Estava acenando em pânico para as pessoas através da porta em um ritmo constante - o que estava acontecendo? Um estranho escudo de silêncio rodeou ela e Tess enquanto elas seguiam a multidão em direção a saída. Quando elas se aproximaram, Sally perguntou, “Quem é você e o que está acontecendo?”

Ela podia ver agora que a figura era uma mulher, alta e magra com um rosto pálido e uma expressão séria. Ela estava olhando atentamente para cada pessoa que passava e agora Sally parecia escutar alguém falando com ela.

“Eu sou Morphear do planeta Quiescent. Você acabou de presenciar um ataque feito pelo vilão Louds. Eles foram derrotados por enquanto mas eles voltarão.”

Sally parou, ignorando as pessoas que a empurravam. Seus ouvidos ainda estavam zumbindo por causa do barulho e ela pensava se ela estava tendo alucinações.
 
Ela encarou os olhos calmos da mulher e ouviu sua voz de novo em sua cabeça.

“Proteja sua audição! É um dom precioso.”

A mulher se virou como se estivesse falando com a multidão a empurrando para a saída.

“Eu ficarei pelo tempo que precisarem de mim. Nós devemos lutar contra o Louds juntas.” Ela se virou para Sally e sorriu. “Confie em mim. Quando vocês precisarem de mim, eu escutarei.”

Sally e Tess foram arrastadas pela multidão. Quando elas se viraram a figura azul tinha desaparecido.