Demi

 

Amália sabia que algo estava errado logo que ela pisou para fora de casa. Uma mulher passeando com o seu cachorro quase a derrubou. Sem se desculpar - somente um olhar preocupado. Até o cachorro parecia preocupado. Um homem que normalmente estava correndo passou por ela andando rápido. Ela sabia que aquele corredor, jamais andava. A hipersensibilidade de Amália estava muito acurada hoje. Algo de ruim havia acontecido, mas o que? Não havia trânsito, não havia quebra no mercado, não havia nenhum asteróide caindo do céu em direção a terra. Nada de importante nos noticiários essa manhã.

Mas ondas de pânico se passavam pelo corpo de Amália, mostrando que as pessoas estavam se sentindo ansiosas. Ela foi trabalhar de qualquer jeito e logo se entreteu escrevendo a pesquisa que ela havia realizado sobre um produto super secreto de um cliente. Na hora do chá da manha, ela percebeu que metade de seus colegas nao apareceram para trabalhar. Ela ligou a TV no noticiário. Comportamentos estranhos, acontecimentos estranhos. Os jornalistas estavam correndo de um lugar para o outro, tentando acompanhar os acontecimentos.

Por volta de meio dia, Amália decidiu que não dava mais. Era hora de investigar. Ela fez o caminho mais seguro até o seu esconderijo secreto, um armazém numa parte calma da cidade. Ela se sentou na frente de um computador no meio do grande quarto, pressionou o botão de ligar e olhou para as telas enquanto elas se acendiam com notícias do mundo todo. Ela rodou seu último algoritmo de busca e balançou sua cadeira pra frente e pra trás, esperando um padrão aparecer. 

“Caos!” Ela resmungou com raiva. Ela pulou e passou sua mão na tela de segurança. O painel deslizou de volta, exibindo uma máscara indescritível sobre uma almofada de veludo. Ela pegou a máscara e a colocou, ela sentiu um redemoinho de energia que a transformou em seu outro eu. Ela sorriu ao ver seu reflexo no espelho. Ninguém a reconheceria agora. Cada vez que ela colocava, a máscara mudava sua aparência. 

As ruas estavam desertas. Ela tentou pegar um taxi, mas quando o motorista olhou para ela ele continou dirigindo. Algumas pessoas estavam andando sem destino. Alguns só estavam acompanhando o fluxo com o celular grudado na orelha. Por um momento ela parou, fechou seus olhos e abriu a sua mente para o pensamento deles.

“Eu estava me sentindo ótimo. Agora me disseram que eu tenho uma doença terminal.”

“Eu acho que estou morrendo. Não sei o que fazer, não tem uma cura…”

“O que você quis dizer com não tem mais nenhum lugar disponível? Eu tenho voltar pra casa da minha família. Eu tenho que vê-los antes de morrer!”

Amália se alongou e começou a fazer ligações.

“Eu não tenho idéia!” Seu amigos no hospital da cidade pareciam agitados e Amália podia ouvir alguém gritando no fundo. “As pessoas começaram a aparecer na emergência. Eles estão convencidos que estão morrendo. Mas não conseguímos achar nada errado neles.” Ela ouviu uma barulho de batida. Seu amigo gritou “Eu tenho que ir,” e desligou o telefone. Amália ficou parada por alguns segundos e então ligou para a Agência. Uma mensagem pediu para ela digitar a sua senha e ela digitou “Demi”.

O rosto do seu contato piscou na tela, ela olhou intrigada por um momento e então sorriu. “Ótimo disfarce,” ela comentou. “Eu jamais iria te reconhecer.”

A agente como sempre estava como uma boneca. Cabelo perfeito, maquiagem como uma obra de arte. Mesmo sabendo que Amália tentava ser discreta, ela sempre fazia comentários sobre sua aparência.

“Você nunca viu o meu verdadeiro eu,” Amália retrucou. “O que está acontecendo?”

A agente fez uma careta. “Um desastre na MetaSaúde. Alguém entrou no sistema de saúde e estragou tudo.”

Amália se lembrou do lançamento do programa BemEstar. A maioria das pessoas pensaram que seria um sucesso. Ter atualizações sobre seus sinais vitais, sendo possível monitorar suas dietas, e então ter um impacto positivo na saúde das pessoas. Amelia não acreditava muito. Ela achou que quando as pessoas se acostumassem elas voltariam aos seus velhos hábitos. E ela estava preocupada sobre todos os dados pessoais que estariam nas mãos da empresa.

“Disseram para as pessoas que eles tem uma doeça terminal, que eles deveriam parar de comer,” continuou a agente. “Professores sairam das escolas, voôs que não decolaram. Um caos.”

“É mesmo,” disse Amália. “E eu aposto que Chaos está por trás disso.”

A agente suspirou. “Você sabe que eu não acredito nessas coisas. Esse é um ataque terrorista.”

“Pense o que quiser,” Amália retrucou “Você quer minha ajuda ou não?”

Amália nunca foi capaz de convencer a Agência em como ela conseguiu seu super poder ou sua batalha infinita contra Chaos. Ela tinha que admitir que ela as vezes não acreditava em si mesma.

Ela viajou para África, ela sempre quis ir para Timbuktu - só pra dizer que ela já esteve lá. Um de seus amigos a convenceu a ir visitar a famosa biblioteca de Timbuktu. Ele perdeu o interesse rápidamente mas Amália continuava andando pela biblioteca, olhando para os livros de exibição.

“Você está aqui, Demi,” uma voz sussurou.

Amália olhou a sua volta. “Desculpa,” Ela respondeu. O homem vestindo um longo casaco branco era bem velho e parecia ser cego. “Eu não sou Demi. Meu nome é Amália.”

O homem tocou seu ombro. “Você é Demi. Venha comigo e eu te mostrarei o que você precisa fazer.”

Quando ela saiu da biblioteca para a luz do sol, seu amigo estava furiosos. “Aonde é que você se meteu?” Ele exigiu um explicação.

Amália não conseguia nem falar. Ela tinha acabado de aprender 40.000 anos de história e o seu papel no que estava por vir. Bem e mal, amor e ódio, empatia e desprezo, ordem e caos.

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“Desculpe Demi,” a agente tentou parecer arrependida mesmo sabendo que Demi podia ler seus verdadeiros sentimentos. Ela estava irritada em saber que ela dependia de uma estranha menina que não tinha uma status oficial mas tinha uma linha direta para a todas as pessoas. 

“Então me limpe meu histórico com o MetaSaúde. Eu estarei lá em 5 minutos.”

A agência mandou um carro e um segurança para ascoltá-la no meio da multidão até chegar no prédio da MetaSaúde. O segurança tentou conduzi-la em direção ao elevador mas Amália foi em direção a escada de emergência. Ela ouviu ele gritando para ela voltar, mas ela seguiu sua intuição e desceu três lances de escada.

Ela foi para perto de um grupo de engenheiros preocupados e logo estava em uma sala com um grande servidor. Uma equipe de pessoas estavam conversando ao mesmo tempo e desenhando diagramas ferozmente no quadro. Ninguém percebeu enquanto ela ia em direção ao terminal e se sentou para investigar. Uma rápida olhada mostrava que o sistema ainda estava mandando mensagens para as pessoas, falando que elas estavam doentes. Ela passou os dedos pelo teclado enquanto ela olhava a lista de atividades e localizou a primeira mensagem.

Ela respirou fundo. Essa era é a parte que ela detestava. Ela se virou para a parede e chamou a Agente novamente. Ela não parecia tão bem agora. Seu rosto estava desfigurado e seu lenço no pescoço torto.

“O quão ruim estão as coisas?” Perguntou Amália.

“Roubos no Brasil. Londres está deserta. Você precisa trabalhar rápido.”

Amália desligou a chamada, pressionou a testa contra a tela do computador e limpou sua mente. Todos que olhavam para ela pensavam que ela estava exausta e havia desistido.

Não havia ninguém para ver o que aconteceu a seguir - a cena começou a voltar no tempo, primeiramente devagar e depois mais rápido até que a sala ficou borrada. Imagens piscavam na tela do computador mas os olhos de Amália estavam fechados. Ela saberia quando o momento chegasse - quando Chaos havia entrando no sistema e causado a destruição.

Ela segurou na mesa, seu rosto estava tenso pela concentração, seus ombros curvados com esforço.

Finalmente ela levantou o rosto. As pessoas ao seu redor se mexendo lentamente e a mensagem apareceu na tela. As instruções eram extremamente simples para algo tão letal. Amália olhou a sua volta e então mergulhou nas configurações do sistema. Ela digitou “Desabilitar o Aplicar todas as configurações.” Quando ela apertou entra, as instruções desapareceram e a sala voltou a ter vida novamente.

“Hey! Quem é você?” Um dos engenheiros olhava para ela.

Amália fechou os olhos novamente e fez mais um esforço. “Eu sou a nova estagiária. Você não se lembra de mim?”

O homem parecia confuso mas recuou. “Ah claro, me desculpe.”

Amália estava exausta. Ela pegou o elevador para o térreo e correu para a luz do sol. O mundo tinha voltado ao normal, como deveria ser.

Enquanto ela tirava a máscara, um vulto escuro passou por ela e desapareceu no meio da multidão. Mas ela ficou com a sensação familiar de escuridão, úmido e frio.

Seu celular tocou e o rosto da agente apareceu. Ela parecia normal, mas estava meio irritada. “Eu estou tentando contactar você por horas,” disse ela. “Tem uma coisa que gostariamos da sua ajuda.”

“É urgente?” Perguntou Amalia. “Eu estou me sentindo um pouco cansada.”
“Não consigo pensar o porquê,” retrucou a agente. “Faz muito tempo desde que você trabalho pra gente.”

Amalia sorriu. “Sim, muito tempo!” ela concordou.